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Poesia - Dorival Fontana

Do Mar

Silenciosa noite
traz o vento
bruma passageira
farol sem lume
olhos ao cais
amores partem
oceano de lágrimas
mar aberto
porto inseguro
navio a deriva
incerto tempo de ancoragem
maresia
marulho
tempestades
a cada dia um naufrágio
e a certeza de sempre navegar

* * *

Reencarne

Passei pela vida
e a vida por mim passou.
Um êxtase sem orgasmo,
um repente sem rima...
sem propósitos, sem compromissos maiores,
distraído ao redor, transeunte acidental...
passei pelos anos... os anos passaram.
Abruptamente a vida termina
como final de novela infeliz.
Incompleto desenlace
brevemente esgotado.
Agora é tarde para quem parte
e para maiores indefinições.
O tempo se esgota
mesmo que ainda seja
cedo para os que ficam...
restam apenas saudades,
alguma imagem turva
e a dor que caracteriza a partida.
Transitórios,
meus olhos sempre seguiram em frente,
mas nunca enxergaram em mim, eu mesmo.
Agora olho para lugar nenhum,
irrefletido vácuo, inexpressivo tempo
que me prende e me move estático...
passos em nenhuma dimensão.
Meu retrato agora sem rosto,
desbotado em preto e branco,
no abandono de um quarto qualquer,
apodrece como tronco de árvore morta.
Na floresta escura vago porque não tenho lugar,
habito o escuro, o outro lado, a revelação e o mito.
Sobrevoo o precipício, caio em mim, habito em mim, morro em mim.
Retorno, revolto, renasço, reaprendo, renovo...
tantas vezes quantas forem necessárias.
Posso ser louco, mas não sou covarde...
para viver, morrer ou tentar de novo (evoluir).